O Livro Que Nunca Existiu (IV)
“A inexistência é uma condenação impossível.”
É uma ideia que está em um texto que escrevi como introdução para um poema que eu tinha. O nome do poema é Razão, mas eu coloquei os dois textos no livro “Enquanto houver tempo” com o título “O poema errado”.
“Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”
— Drummond
Vou ao reino das palavras com a tranquilidade de quem trouxe de lá uma ou duas páginas valorosas. São minha permissão. Entro quando quero, extraio as palavras de onde repousam em estado de dicionário, e as acomodo para viagem na forma de poemas perfeitos. Todos se corrompem na passagem, alguns irremediavelmente. É por esse motivo que tantas linhas imprecisas são escritas. Tenho impulsos de retornar ao reino das palavras e vasculhar incansavelmente pelo poema certo. Ele ainda está lá. Mas desse já não tenho a chave, e ninguém mais a poderá ter. Perdeu-se. Olho para o poema embaralhado que possuo, sentenciado à inexistência, e me compadeço do seu destino. Sorrio. A inexistência é uma condenação impossível.
O poema errado
Com a vida diante dos olhos
Escrevi minha história
Manchei os campos com meus passos
Maculei a água com minha sede
Julguei merecer que me sorrissem
Um sorriso puro e ingênuo
Que já não sorri sem tristeza
Fui amado com um amor perfeito
Que hoje tem a marca da minha estupidez
Quisera ter entendido o que é ser humano
O que é ser imperfeito
Quisera ter entendido o propósito de todas as coisas
Segundo o qual nada existe em vão
Não se vive sem culpa
Mas não se existe sem razão
Se em tudo eu tivesse errado
Não choraria por não ter tocado
A flor que deixei morrer no jardim
A flor não temia a morte
A vida era o seu fim
No “mundo da imaginação” os textos são perfeitos, mas eles se corrompem na passagem.
Sobre O Livro Que Nunca Existiu
Carlos Alberto Silva. Poeta. São Gonçalo do Sapucaí, MG.
BBS, 25 de outubro de 2026.